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Precificação & Margem

Lucro Real vs. Simples Nacional para E-commerce: Como Precificar Corretamente em Cada Regime Tributário

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Entenda como precificar no Lucro Real e no Simples Nacional sem perder margem e como cada regime altera preço, markup e CMV.

O que quase nenhum e-commerce entende sobre regime tributário e precificação

A maioria dos e-commerces muda de regime tributário por faturamento — não por estratégia. No entanto, o regime define diretamente sua margem, seu preço mínimo e seu markup. O erro mais comum dos empresários é precificar como se todos os regimes funcionassem igual. Não funcionam.

Enquanto o Simples Nacional concentra os impostos em um único percentual sobre a receita (ainda que variável), o Lucro Real utiliza créditos e débitos de PIS/COFINS, além de exigir apuração precisa de ICMS. Isso altera o custo, o CMV e os percentuais variáveis que entram na fórmula de precificação.

Se o empresário não recalcular preço por regime, cria margem ilusória e descobre meses depois que a empresa vendeu muito… e lucrou pouco. Ou pior: vendeu com prejuízo operacional.

Como o regime tributário impacta diretamente a precificação

Para precificar corretamente, você precisa entender que a diferença entre os regimes não é apenas de alíquota — é de comportamento tributário. O impacto está em três camadas:

  • 1) Percentual de impostos sobre receita — muda o custo variável da venda.
  • 2) Créditos tributários — alteram o CMV no Lucro Real.
  • 3) Obrigatoriedades como ST, DIFAL e ICMS efetivo — mais complexos fora do Simples.

Essas três peças mudam completamente a matemática do preço mínimo.

Simples Nacional: como precificar corretamente

No Simples, o empresário tende a utilizar apenas a alíquota nominal, mas isso é tecnicamente incorreto. Para precificação, usa-se sempre a alíquota efetiva, calculada de acordo com a receita bruta acumulada dos últimos 12 meses.

Alíquota efetiva = (RBT12 × alíquota nominal da tabela − parcela a deduzir) ÷ RBT12

Somente essa alíquota reflete o imposto real sobre receita.

Componentes do custo variável no Simples:

  • Alíquota efetiva do Simples (3% a 19%, dependendo do anexo e faixa).
  • Comissão de marketplace.
  • Taxa de cartão e antecipação.
  • Frete subsidiado (se for variável).
  • Eventual ICMS-ST não recuperado.

Por não permitir créditos de PIS/COFINS, o CMV no Simples tende a ser maior em operações com alto custo de mercadoria.

Fórmula correta de precificação no Simples:

Preço = CMV / (1 − (Custos Variáveis Totais + Margem Desejada))

Simples de operar, mas perigoso se a alíquota efetiva não for atualizada mensalmente.

Lucro Real: como precificar corretamente

O Lucro Real é mais complexo, mas pode ser mais vantajoso para operações com CMV alto, margens apertadas e forte volume. A grande diferença está nos créditos de PIS/COFINS não cumulativos e na forma como o ICMS entra no cálculo.

Onde o preço muda no Lucro Real:

  • Crédito de PIS/COFINS sobre o CMV (geralmente 9,25% de crédito combinado).
  • Créditos sobre frete de entrada.
  • ICMS real, com débito/crédito sobre compra e venda.
  • Possibilidade de compensação de ICMS-ST (ressarcimento).

Isso reduz o custo efetivo da mercadoria, alterando o CMV.

Estrutura de precificação no Lucro Real:

CMV Líquido = CMV Bruto − Créditos de PIS/COFINS − Créditos de ICMS

Depois disso, aplica-se a fórmula de preço:

Preço = CMV Líquido / (1 − (Custos Variáveis Totais + Margem Desejada))

No Lucro Real, o perigo está em ignorar créditos e, com isso, inflar artificialmente o custo — ou deixar de atualizar ICMS por UF e vender com margem falsa.

Comparativo prático: o mesmo produto nos dois regimes

Considere o mesmo SKU com:

  • Custo de compra: R$ 60
  • Marketplace + taxas: 25%
  • Margem desejada: 18%

Cenário A — Simples Nacional

Alíquota efetiva: 9% (exemplo realista)

Custos variáveis totais = 25% + 9% + 18% = 52%

Preço = 60 / (1 − 0,52) = 60 / 0,48 ≈ R$ 125,00

Cenário B — Lucro Real

Crédito de PIS/COFINS: 9,25% → R$ 5,55

Crédito de ICMS (exemplo médio): R$ 3,00

CMV Líquido = 60 − 5,55 − 3 = R$ 51,45

Custos variáveis totais (sem Simples) = 25% + impostos sobre receita (estimados: 3,65% PIS/COFINS venda + ICMS efetivo de 12% considerando débito/crédito) → ~15,65%

Somatório final = 25% + 15,65% + 18% = 58,65%

Preço = 51,45 / (1 − 0,5865) ≈ R$ 124,48

Conclusão do exemplo

No Simples, o preço necessário foi R$ 125,00. No Lucro Real, R$ 124,48 — quase igual.

A diferença real aparece no lucro acumulado, não no preço:

  • No Simples, não há crédito sobre compra — por isso o CMV é maior.
  • No Lucro Real, impostos sobre receita são menores e créditos reduzem o custo.

Operações com CMV alto tendem a ter melhor margem no Lucro Real. Operações com ticket baixo e pouco crédito tendem a performar melhor no Simples Nacional.

Erros comuns ao precificar por regime tributário

  • Usar alíquota nominal do Simples em vez da efetiva — erro clássico que destrói margem.
  • Ignorar créditos de PIS/COFINS no Lucro Real — eleva CMV artificialmente.
  • Não atualizar ICMS por UF — margens se tornam inconsistentes.
  • Usar o mesmo preço para todos os canais e todos os estados.
  • Recalcular preço apenas quando “dá problema”, e não mensalmente.

Esses erros fazem com que o preço não reflita o regime tributário e a operação perca lucratividade sem perceber.

Framework profissional para precificar por regime tributário

Para que o preço final considere corretamente o regime, aplique este framework:

  1. Calcular CMV real do SKU (incluindo ST, inbound, embalagens, complementos e ressarcimentos).
  2. Determinar impostos variáveis reais por canal (Simples efetivo, ICMS, PIS/COFINS).
  3. Aplicar créditos tributários apenas no Lucro Real.
  4. Recalcular preço mínimo por canal: site, marketplace A, marketplace B.
  5. Monitorar margem mensal — regimes mudam, tributos mudam, e preços devem acompanhar.

Empresas que seguem esse framework reduzem distorções de margem e aumentam previsibilidade financeira mesmo com variação de volume, mix e impostos.

Conclusão

Precificar corretamente no Lucro Real e no Simples Nacional não é simplesmente ajustar alíquota: é entender como cada regime altera o CMV, os custos variáveis, os créditos tributários e o preço mínimo seguro. No Simples, o risco é usar alíquota errada. No Lucro Real, o risco é ignorar créditos e ICMS. Em ambos, precificação incorreta cria margens falsas e decisões ruins.

O regime tributário muda o preço — e quem ignora isso vende bem, mas lucra pouco. Empresários que alinham precificação ao regime tributário constroem operações mais previsíveis, margens sólidas e crescimento sustentável.

Guilherme Z. - Consultor de E-commerce

Sobre o autor

Guilherme Z. — Consultor de E-commerce e Marketplaces

Especialista em e-commerce e marketplaces com mais de 10 anos de experiência em grandes empresas como Netshoes, Decathlon e GPA. Fundador da AKUMA, ajuda empresas a escalarem suas operações digitais com estratégia e tecnologia.

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