Por que 70% dos CMVs nas planilhas estão errados
O CMV (Custo da Mercadoria Vendida) é a base de qualquer precificação, margem ou cálculo de preço mínimo. Mas, na prática, a maior parte das empresas calcula o CMV de forma simplificada demais: consideram apenas o custo de compra e esquecem custos indiretos, logísticos, tributários e variáveis que deveriam compor o custo final de entrada. Resultado? A margem fica inflada, a precificação fica distorcida e o empresário toma decisões baseado em dados ilusórios.
Em operações que faturam entre R$ 500 mil e R$ 10 milhões/mês, um CMV mal calculado pode corroer entre 8% e 20% da margem de contribuição. Por isso, um checklist rigoroso é essencial para garantir que o CMV na planilha represente a realidade financeira da operação.
Checklist oficial do CMV para planilhas de precificação
A seguir, o checklist completo que todo empresário deve aplicar ao montar ou auditar seu CMV.
1. Custo de Compra (obrigatório)
- Preço unitário negociado
- Descontos comerciais aplicados na compra
- Bonificações convertidas em valor
Esse é o ponto de partida — mas é apenas a “ponta do iceberg”.
2. Impostos na Compra
- ICMS destacado (quando aplicável)
- ICMS-ST pago (antes de ressarcimento ou complemento)
- DIFAL de aquisição (se interestadual B2B)
- PIS/COFINS (para regimes não cumulativos ou crédito de insumos)
A inclusão correta desses tributos altera radicalmente o custo real, especialmente em operações com ST.
3. Custo Logístico de Inbound
- Frete de entrada (rateado por volume, peso ou valor)
- Seguro da carga
- Taxas de recebimento ou manuseio
O frete de inbound costuma representar 2% a 8% do CMV real e é um dos itens mais ignorados pelos empresários.
4. Custo de Armazenagem e Manuseio (quando variável)
- Custo por recebimento
- Custo por cubicagem ocupada
- Custo unitário de picking/packing (se rateado por pedido/SKU)
Se a armazenagem for fixa, não entra no CMV. Mas se for por unidade, pedido, volume ou peso, é obrigatória.
5. Rateios obrigatórios
- Custo de embalagem unitária
- Custo de etiqueta e impressão
- Kits ou bundles que exigem mão de obra adicional
Itens pequenos, mas que acumulados representam 1% a 3% da margem da operação.
6. Ajustes tributários de ST e DIFAL
- Complemento de ICMS-ST (quando preço real > preço presumido)
- Ressarcimento de ICMS-ST (quando preço real < preço presumido)
- DIFAL residual por operação (quando não repassado)
Esses ajustes mudam o custo líquido e precisam ser considerados na precificação.
Itens que não devem entrar no CMV (mas muitos empresários colocam)
Para evitar distorções, é importante separar o que realmente pertence ao CMV do que deve permanecer nos custos variáveis ou despesas.
- Taxa de marketplace → custo variável, não CMV.
- Taxa de cartão → custo variável.
- Frete grátis → custo variável.
- Impostos sobre receita (Simples, ICMS venda, PIS/COFINS) → variáveis.
Colocar isso no CMV distorce DRE gerencial, gera markup errado e mascara problemas de margem.
Como organizar o CMV na planilha de precificação
Para garantir que o CMV esteja sempre correto, use esta estrutura de cálculo:
CMV Real = Custo de Compra + Tributos de Compra + Inbound Logístico + Armazenagem Variável + Embalagem / Rateios ± Ajustes ST e DIFAL
Esse CMV é a base do preço mínimo e da margem real. É ele que deve alimentar sua fórmula de precificação:
Preço de Venda = CMV Real / (1 − Custos Variáveis Totais)
Exemplo prático de CMV completo
Suponha um produto com os seguintes dados:
- Custo de compra: R$ 40
- ICMS-ST pago: R$ 6
- Frete inbound: R$ 3
- Embalagem: R$ 1,20
- Complemento ST: R$ 1,50
CMV total:
40 + 6 + 3 + 1,20 + 1,50 = R$ 51,70
Se você precificar pensando que o CMV é “40”, sua margem ficará artificialmente inflada.
Sinais de que seu CMV está errado hoje
- Margem do ERP ≠ margem da planilha.
- Mix parece rentável, mas caixa vive apertado.
- Promoções geram prejuízo inesperado.
- Categoria de alto giro não gera lucro.
- Reposição de estoque “consome caixa demais”.
Esses sintomas indicam que seu CMV não reflete o custo real por SKU.
Framework de implementação do CMV profissional
Para padronizar o CMV e integrá-lo ao processo de precificação, aplique o seguinte framework:
- Identificar todos os componentes do CMV — tributário e logístico.
- Criar tabela de CMV por SKU no ERP ou planilha central.
- Atualizar custos mensalmente (ou quinzenalmente em categorias voláteis).
- Acompanhar ICMS-ST e DIFAL por UF para ajustes contínuos.
- Integrar CMV ao cálculo de preço mínimo para evitar margens negativas.
Empresas que executam esse framework reduzem em até 40% os erros de precificação e aumentam a previsibilidade de margem SKU a SKU.
Conclusão
O CMV é o coração da precificação. Quando ele está errado, todo o resto está errado: markup, margem, preço mínimo, Black Friday, frete grátis, campanhas e até o planejamento de caixa. Um checklist estruturado garante que o CMV represente o custo real de entrada da mercadoria — e não uma versão simplificada e ilusória.
Empresários que dominam o CMV constroem preços profissionais, protegem margem e tomam decisões com base em dados reais, não em suposições.

