Por que 90% das empresas usam markup errado
A maior parte das empresas brasileiras ainda precifica produtos com fórmulas simplificadas ou herdadas de planilhas antigas. O resultado é previsível: margem ilusória, caixa apertado e lucro abaixo do planejado. O problema não está no markup em si, mas em como ele é calculado — ignorando impostos, taxas de marketplace, custos variáveis e influências diretas sobre a margem de contribuição.
Para um empresário operando entre R$ 500 mil e R$ 10 milhões/mês, precificação errada não corrige apenas o preço: corrige o lucro do negócio inteiro. Por isso, entender o markup com rigor matemático deixa de ser exercício acadêmico e passa a ser ferramenta de sobrevivência operacional.
Os componentes que realmente devem entrar no cálculo
A fórmula correta de markup depende do entendimento claro dos custos variáveis que incidem sobre cada venda. De modo geral, os empresários calculam apenas o custo do produto, mas esquecem de elementos essenciais:
- Impostos sobre receita: ICMS, PIS/COFINS, ISS (para serviços), Simples Nacional ou regime normal.
- Taxas de marketplace: comissão, fulfillment, logística integrada.
- Meio de pagamento: taxas de cartão, antecipação de recebíveis.
- Frete subsidiado (quando for custo variável): valor que a empresa precisa bancar por venda.
- Custo do produto: aquisição + inbound + armazenagem variável.
Em outros termos: qualquer valor que varie conforme a quantidade vendida deve entrar na fórmula. Se impacta margem de contribuição, precisa ser contabilizado antes de definir o preço.
A fórmula correta do markup considerando taxas e impostos
O erro clássico é colocar tudo como adição: custo + impostos + taxa + margem. Mas isso produz margem falsa porque impostos e taxas incidem sobre receita, não sobre custo.
A fórmula correta é uma divisão, não uma soma. Estrutura base:
Preço de Venda = Custo do Produto / (1 - (Impostos + Taxas + Margem Desejada))
Onde:
- Impostos = soma dos percentuais sobre o faturamento.
- Taxas = marketplace, cartão, etc.
- Margem Desejada = margem de contribuição alvo (ex.: 20%).
Exemplo prático:
Custo = R$ 50
Impostos = 12%
Marketplace = 16%
Taxa de pagamento = 3%
Margem desejada = 20%
Somatório dos percentuais variáveis: 0,12 + 0,16 + 0,03 + 0,20 = 0,51
Aplicando a fórmula:
Preço = 50 / (1 - 0,51) = 50 / 0,49 ≈ R$ 102,04
Se o empresário simplesmente somasse 51%, chegaria a R$ 75,50 — o que seria um desastre financeiro. A operação pareceria rentável, mas perderia dinheiro em cada venda.
Como estruturar o markup correto para diferentes regimes tributários
Dependendo do regime fiscal da empresa, o impacto no markup varia. Para quem está no Simples Nacional, o percentual efetivo de impostos varia por faixa e anexos. Para quem está no lucro presumido ou real, ICMS e PIS/COFINS precisam ser considerados com mais precisão.
Simples Nacional: utilizar o percentual efetivo (alíquota total dividida pela receita bruta acumulada nos últimos 12 meses). Nunca use a alíquota nominal da tabela — ela é incorreta para precificação.
Lucro Presumido: considerar PIS/COFINS cumulativos (3,65%), ICMS efetivo (varia por estado) e ISS para serviços.
Lucro Real: considerar crédito e débito de PIS/COFINS, além de ICMS recuperável.
Empresários que erram essa etapa normalmente apresentam margens incoerentes entre relatórios contábeis e operacionais. O markup é o elo entre operação e finanças — não pode ser impreciso.
Impacto financeiro direto de um markup mal calculado
Um markup subestimado em apenas 5% pode destruir a margem anual. Suponha:
- Faturamento anual: R$ 8 milhões
- Margem real esperada: 18%
- Margem real obtida devido a erro de precificação: 13%
A diferença de 5 p.p. representa:
Prejuízo operacional invisível: R$ 400.000/ano
Esse tipo de perda não aparece no DRE imediatamente. Ela “vaza” nos custos variáveis e se soma ao final do período. Ajustar a fórmula de markup é uma das atitudes com maior impacto no ROI imediato.
Framework de implementação do markup correto na operação
Para que o markup seja aplicado de forma consistente, é necessário transformar esse cálculo em processo — não apenas em uma planilha. O framework recomendado é:
- Mapear todos os custos variáveis: marketplace, impostos, taxas, frete, meio de pagamento, antecipação.
- Definir margem mínima por categoria: margens iguais para todos os produtos geram ineficiência.
- Calcular markup reverso por categoria: produtos com ticket diferente precisam de margens diferentes.
- Integrar o cálculo ao ERP ou sistema de gestão: para evitar erros manuais.
- Revisão trimestral: taxas e impostos oscilam; o markup deve acompanhar.
Empresas que adotam esse framework reduzem volatilidade nas margens e aumentam previsibilidade de lucro.
Erros comuns que destroem margem sem o empresário perceber
Além da fórmula errada, existem erros comportamentais e operacionais que corroem margem silenciosamente:
- Usar taxa nominal de marketplace ao invés da efetiva: muitos marketplaces têm estruturas híbridas.
- Desconsiderar taxa de antecipação: geralmente 1,5% a 2,8%, impactando venda por cartão.
- Não separar frete subsidiado como custo variável: afeta diretamente o markup.
- Aplicar a mesma margem a categorias diferentes: produtos de giro acelerado aceitam margens menores; produtos lentos exigem margens altas.
- Atualizar preços tardiamente: inflação de fornecedores destrói markup em semanas.
Quando esses pontos não são corrigidos, o markup vira um número bonito que não representa a realidade financeira.
Conclusão
Markup correto não é sobre “colocar preço”: é sobre proteger margem, garantir contribuição saudável e assegurar que a empresa realmente lucra a cada venda. Um cálculo impreciso pode parecer irrelevante na venda individual, mas impacta centenas de milhares — ou milhões — no acumulado anual. A fórmula apresentada, aliada ao framework operacional, oferece uma base sólida para um processo de precificação profissional e realmente lucrativo.

