Por que a ordem das contratações define o futuro da operação
A maioria dos e-commerces quebra ou estagna não por falta de demanda — e sim por falta de estrutura. Contratam marketing antes de organizar estoque. Colocam pessoas para “subir produto” antes de corrigir processos. Colocam atendimento para apagar incêndio que a operação criou. O resultado é crescimento desordenado, margens destruídas e donos sobrecarregados.
Um e-commerce escalável nasce de um organograma incremental: cada contratação desbloqueia um gargalo crítico e aumenta a capacidade operacional. O erro mais caro é contratar funções “de moda” antes das funções essenciais de base.
Os pilares que definem o organograma de qualquer e-commerce
Independente do nicho, porte ou plataforma, um e-commerce se apoia em 5 pilares estruturais:
- Produto & Catálogo (cadastro, compra, margem, SKU)
- Operação (estoque, picking, packing, expedição)
- Sistemas & Processos (ERP, hub, integrações)
- Atendimento & Pós-venda
- Marketing & Aquisição
A ordem de contratação deve respeitar a lógica de maturidade desses pilares. Primeiro “arruma a casa”; depois acelera tráfego.
Quem você (empresário) é no início da operação
Nos estágios iniciais, o dono é praticamente um “departamento completo”. Ele faz:
- cadastro,
- compra,
- atendimento,
- separação,
- embalagem,
- expedição,
- marketing,
- pós-venda.
Mas à medida que o faturamento passa de R$ 50–100 mil/mês, o gargalo não é mais venda — é execução. E é aqui que a ordem das contratações começa a importar.
O organograma mínimo viável por fase de faturamento
Fase 1 — Até R$ 80 mil/mês: o dono + 1 operador
Nesse nível, a prioridade é tirar o dono da operação física para liberar tempo estratégico.
Primeira contratação obrigatória: Operador de Estoque / Expedição
- separação,
- conferência,
- embalagem,
- expedição,
- controle do estoque.
Sem essa função, o dono vira gargalo operacional e trava o crescimento. É impossível escalar sem alguém na operação física.
Fase 2 — Entre R$ 80 mil e R$ 200 mil/mês: organização de catálogo e processos
Nesse estágio, os problemas começam no catálogo e nos sistemas:
- SKU errado,
- cadastro inconsistente,
- ruídos de integração,
- estoque divergente.
Segunda contratação obrigatória: Assistente de Cadastro / Catálogo
Responsável por:
- limpar e padronizar SKUs,
- criar novas fichas técnicas,
- configurar variações,
- garantir integridade fiscal (NCM, peso, dimensões),
- mapear no ERP e hub corretamente.
Uma operação sem catálogo sólido sempre gera prejuízo, não importa o volume de vendas.
Fase 3 — Entre R$ 200 mil e R$ 400 mil/mês: atendimento e pós-venda
Aqui surge um ponto crítico: volume de pedidos crescendo → volume de contatos cresce junto.
Terceira contratação obrigatória: Atendimento / Suporte ao Cliente
Deve assumir:
- atendimento omnichannel,
- devoluções e trocas,
- casos internos (reentregas, avarias, reenvios),
- mensuração de SLA de resposta.
O atendimento é peça-chave para preservar reputação nos marketplaces — e a reputação garante tráfego e conversão.
Fase 4 — Entre R$ 400 mil e R$ 1 milhão/mês: coordenação e compras
A operação agora precisa de inteligência para sustentar margens e evitar ruptura.
Quarta contratação obrigatória: Analista de Compras / PCP
- controle de giro,
- giro por curva ABC,
- reposição,
- negociação com fornecedores,
- planejamento da demanda.
Só essa função evita rupturas, mantém catálogo vivo e reduz custo de capital.
Fase 5 — Acima de R$ 1 milhão/mês: consolidação estrutural
Nesse ponto, a empresa já tem operação, catálogo e atendimento funcionando. Agora precisa de liderança e escala.
Contratações típicas:
- Coordenador de Operações
- Analista de Marketplace / Pricing
- Analista de Logística
- Marketing / Performance
- Financeiro pleno
Aqui o organograma se divide em quatro células claras:
- Operação
- Marketplace
- Atendimento
- Compras
O erro fatal: contratar marketing antes de ter operação e catálogo organizados
Muitos empresários cometem o erro de contratar tráfego pago ou equipe de marketing muito cedo. Resultado:
- venda de itens sem estoque,
- problemas de entrega,
- reclamações,
- CPM mais alto,
- dificuldade de mensurar margem real.
Marketing só é investimento quando a casa está organizada — antes disso, é despesa desperdiçada.
Quem contratar primeiro depende do gargalo atual — não da lista tradicional
Empresas diferentes têm gargalos diferentes. As três perguntas corretas são:
- O que está travando o crescimento hoje?
- Onde estou perdendo mais dinheiro agora?
- Qual função libera mais tempo estratégico do dono?
Se o gargalo é expedição → contratar operação. Se é cadastro → catálogo. Se é reputação → atendimento. Se é ruptura → compras.
Modelo recomendado de organograma por maturidade
Nível 1 — Fundação (até R$ 200 mil/mês)
- Dono (estratégia + compras)
- Operador de estoque/expedição
- Cadastro/Catálogo
Nível 2 — Estabilidade (até R$ 500 mil/mês)
- Atendimento
- Analista de marketplace
- Financeiro básico
Nível 3 — Escala (até R$ 1 milhão/mês)
- Compras/Planejamento
- Coordenador de operações
- Analista de logística
Nível 4 — Aceleração (acima de R$ 1 milhão/mês)
- Marketing de performance
- BI/Analytics
- Gerente de e-commerce
Checklist: quem contratar primeiro no seu cenário?
- Pedidos atrasando? → Operação.
- Estoques divergentes? → Catálogo/ERP.
- Reclamações aumentando? → Atendimento.
- Ruptura constante? → Compras/PCP.
- Anúncios caindo? → Marketplace/Pricing.
- Margem caindo? → Compras + Pricing.
Conclusão
E-commerce não escala com “muitas pessoas” — escala com as pessoas certas, na ordem certa. O organograma deve acompanhar o crescimento, desbloquear gargalos e proteger margem. Começa-se pela base operacional, passa-se pela organização do catálogo, estabiliza-se atendimento e compras, e só então acelera-se marketing e tráfego.
Empresas que contratam na ordem correta constroem operações previsíveis, lucrativas e antifrágil. As que contratam na ordem errada acumulam retrabalho, queda de reputação e margens destruídas. Estruturar o organograma é tão estratégico quanto escolher produto ou plataforma.

